domingo, 3 de abril de 2016

Cuspir e partir

Uma hora ou outra sempre vem o soco
Um descuido e pronto
O que resta é cuspir o sangue que enche a boca
O corpo firme sente a pancada e reage
Teima em permanecer inerte em sua posição original (de pé)
A dor vem em instantes
Agora, o sujeito lamenta o erro
O vacilo
O chão não vai acalentá-lo
O sujeito sabe bem o gosto da queda
Mas o tombo é inevitável
Agarrando-se as cordas
No meio de toda aquela angústia com aparência de resistência
Exposto em toda sua fragilidade
O pânico acena
Aponta pra baixo
Indicando a proximidade do inferno
O seu maior desejo é a morte
Só a morte pode livrá-lo da derrota
A morte não veio
Há apenas vida e socos
Socos trocados, a vida... 

A Raiva,
Sempre amiga nos segundos instáveis,
O abençoa
Dá-lhe força e graça
A cólera,
Com muita humildade lhe estende a mão
O levanta como um amigo exemplar
O ódio,
lhe oferece ternura
O abraça e...
Depois sussurra uma ordem de ataque
A dor evapora do seu corpo como um espírito maldito
Ele parte com alegria
Vomita a esperança e o medo
Cego de fúria
Leve como uma nuvem chumbo
Que escarra raios sem verter água

Sabe que nada é divino,
maravilhoso,
sagrado ou misterioso...

As sequelas como guia
Mantendo a raiva aconchegante
Sem luto
Nem melancolia.





sábado, 17 de outubro de 2015

Sísifo de Puma Disk

É sempre difícil não ficar meio enjoado  ao andar um pouco na rua pensando nisso. Você sente aquela ânsia de vômito como se tivesse engolido uma tufa de cabelo.

Passei a ter esse tipo de repulsa depois de uma tarde que eu saí pra espalhar uns currículos, tava precisando de uma grana pra me mudar pra um lugar mais próximo da faculdade no centro.

E essa sensação acabou marcando aquela tarde: Bom, eu me lembro de ter parado numa banca e comprado um Amarelinho* (tinha um real em moeda no bolso), acabara de subir a Rebouças  a pé, tinha ido numa entrevista e deixado um currículo pra uma vaga de atendente de caixa num boteco desses “bar e lanchonete” que vende PF bom e barato e salgado
por R$ 3,00, acho que o nome era  “Bar e Lanchonete Alvorada do Norte”.

Próximo da banca onde comprei o Amarelinho* tinha umas mesas, umas kombis vendendo lanches (food truck), era umas 15:00h, tinha um sol bonito e fazia um frio na sombra por causa do outono. Tinha um lugar numa mesa que recebia um sol, daí me apressei e fui pro tal lugarzinho ensolarado que restava, me lembrei que ainda nem tinha almoçado, tinha pouco mais que cinco reais no cartão de débito, era tudo o que me restava pra passar o dia. Como estava numa praça de foodtruck, a grana que eu tinha só dava pra comprar um churros.

Esqueço-me do fato de não ter almoçado e recobro a atenção nas vagas de empregos anunciadas no jornal, bom preciso no mínimo de alguma coisa que me pague R$900,00 por mês com VR+VT, não precisa de plano de saúde, certamente nem vou usar.

Deslizo o indicador sobre a página amarela de papel reciclado, estaciono o dedo ainda na letra “A” , é uma vaga para auxiliar de estoque, de repente um garoto pára do meu lado.

-Moço, paga um lanche pra mim? Eu ainda nem almocei!

-Cara, eu não tenho. Desculpa!

O menino  foi embora, andava com ele mais quatro moleques mais ou menos da mesma idade, tinham pouco mais que uma década, entre 11 e 14 anos... Pediam a todos que estavam naquela espécie de praça de alimentação. Eles faziam uma varredura, passavam em cada mesa que estivesse alguém sentado, era um tipo de tarefa que eles realizavam afim de atingir um meta de trocados ou comida pra suprir o dia, por analogia percebi que eles estavam fazendo a mesma coisa que eu. Eles só estavam tentando arranjar alguma grana para viver de um modo suportável. É claro que não pensei no grupo de garotos por caridade, bondade ou justiça humana, ou qualquer outro senso de dignidade... só vi que realmente estávamos igualados no modo de agir e de sustentar a vida morna que nos cabia viver.   Aliás, não apenas morna como decadente, sem nexo...
morna de tal modo que o imperativo do dia era conseguir dinheiro pro almoço, decadente de tal modo que a entropia* se fazia presente e muito real, os anos de esperança já escorreram pelo ralo do tempo, já tenho 26 anos e não posso mais contar com ninguém para ajudar nas despesas e dívidas que se acumulam, não que eu seja um esbanjador, o fato é que não tenho um trabalho digno a oito meses, e as dividas são em maior parte de empréstimos que pedi a conhecidos para pagar aluguel e contas de água e luz. Sem nexo simplesmente de ser absurdo estar vivo e ser obrigado a existir dessa maneira inútil, eu sempre me pergunto: Qual a utilidade de estar vivo dessa forma?

Após a pergunta, ecoa um silencio de morte, uma escuridão indiferente olha a minha face com olhos secos e a testa franzida, como se eu estivesse cometido uma blasfêmia pelo o fato de querer saber a resposta.

Ouço um cara bem vestido, dentro das normas de boa aparência corporativa gritar:

 - Hey! Você já pediu lanche aqui!

O garoto responde
- Eu?

O cara continua:
- É! Você mesmo! Já passou aqui e eu já paguei um dog pra você!

Mas se é para existir, então vamos lá. Naquela tarde o garoto me ensinou muita coisa.

Gloriosamente, o menor de 13 anos se transforma num rei, um avatar de Napoleão cheio de ódio, desprezo, cinismo, alegria e ironia.

Um Alexandre com um corpo de besta e cabeça de leão com cólera.

Elegantemente responde:
-Vá se fuder, seu arrombado!

Era tanto ódio e desprezo naquele coraçãozinho que eu fiquei maravilhado, tive um espasmo de grata surpresa. O garoto de no máximo 50 kg, um Puma Disk velho tamanho 40 (visivelmente bem maior que seu pé), com  pouco mais de uma década de vida, acho que uns 13 anos...

Com muita alegria eu via sair dos olhos do menor, raios de ódio e desprezo por todo aquele cenário,



Continuou a pedir novamente, já esquecido do evento...

sábado, 8 de agosto de 2015

conto veloz de OUTONO



Um boteco da Rebouças e um outro no baixo Augusta
Você não disse nada e quis ficar perto
                

Meu copo de cerveja é o mesmo que o seu

A tua orelha é minha boca num beijo lento
E a tua boca e língua molhadas depois de um gole de cerveja (no nosso copo) vêm feito nave procurando pouso.

Eu me afasto,
Acendo outro cigarro e fico reparando teu brinco.
Enquanto você segura a minha mão e olha pra onde eu não sei.

No momento eu até imaginei que você tenha contemplado o NADA

Só imaginei isto porque o NADA é tão atraente quanto o brinco que você tem na parte superior da orelha

Um clima de calmaria, como se fôssemos cais e velhas companhias um do outro,

Naquele momento, não era necessário dizer nada
Pedir nada;
Se despedir ou falar pra ficar um pouco mais
Isso seria um tiro no vitral daquele momento
Instantes que boiavam no lago dos desejos tranquilos
O único ato cabível de minha parte era
Apenas apoiar tua cabeça no meu ombro
Com a impressão de que não existia tempo capaz de correr
Enquanto sua atitude era a de fechar os olhos e vira-se querendo mais um beijo
Como se quisesse ter certeza de que ficaria ali presente
                                                                                                                                   

...Era tudo calmo, inclusive os teus olhos de sono.

sábado, 8 de novembro de 2014

Não crie dinossauros ou qualquer outro animal que seja maior que seu quintal

MEU rosto de juvenil quando, eu concentrado, vejo a língua dela tocando os dentes enquanto ela pronuncia o "S", toda a importância das coisas que são de fato importantes como: um emprego, um aluguel barato, deus, o caos, a família, o brasileirão, o cigarro antes de dormir ... enfim, coisa de gente séria como eu, acabam em nada. 




 -ESSAS COISAS VIRAM NADA OU QUASE NADA QUANDO: a língua dela toca devagar os (grandes e pouco tortos) para a pronúncia do "S".

É uma imagem, um flash que me pinica por umas meia horinha enquanto tamo conversando. 

Depois dessa pausa no mundo eu olho o olho, o cabelo, o ombro, os braços, as sardas e finjo como um monólito rude e sujo de terra, finjo como quem que olha o vazio da praça, como quem vê uma bunda qualquer, como quem houve um barulho do nada e vira o pescoço pra ver o que foi, finjo como se estivesse odiando estar ali... e os dentes, língua e o som do "S" dos diabos na minha frente.  
Eu tenho uma destreza/aspereza natural por saber passar por pessoas/tempos como esses, os tais são bichos de força que morde(m) e mata(m)...  e eu já sei do risco menina.

 DELA, o olho(S) e a língua  se vestem de bêbados felizes me tentando à festa, digo "olho" (sing.) porque só basta um pra eu perder uns 9 ou vinte segundos mirando e franzindo testa num estado de ingenuidade que não é o meu natural.

Propositalmente à tarde, eu "me deixo" se perder olhando sardas, boca, olho, língua, ombro, (volto) sardas, língua, olho, dentes tortos ..., é um salto num colchão de estrelas onde se  P   O   D   E   P   A   U   S   A   R  os riscos e os males enquanto a vida corre. 

TEMO pelo meu equilíbrio de fingidor acerca da boca, lingua, dente, ÉSSES, sardas e cabelos, pelo meu controle das rédias das coisas que aumentam, temo que o caldo engrosse pro meu lado.

REZO pra Mayakovski me dar a sabedoria das loucuras do "ser todo coração" porque quero sair vivo no final.

sábado, 13 de outubro de 2012

A tarde que dançava.

Era aquela tarde quente, verde e azul
Uma dessas que costumam chegar com gosto de saudade,
Uma dessas que tem hálito de amanhã,
Uma dessas com voz de silêncio e rosto de morena,
Uma dessa tardes que usam vestidos com estampas coloridas,
E anda como se dançasse uma melodia de Caymmi,
Eu estava dentro dela, percebendo cores, variações, tons bemóis... como se assistisse a um filme,
O sereno do ibisco e um bem-te-vi também a compuseram,
e a compuseram também:
O quarto do fim da rua e a janela que servia de moldura pra ela.







segunda-feira, 21 de maio de 2012

Flor do maracujá, vícios e memórias vespertinas

Um café de lucidez,
Um chá, nada mais.
Uma janela pro poer,
Um sofá com silêncio,
Uma estante de memórias,
Um relógio de parede (parado),
Um lustre de avisos,
Ecos de alguns velhos conselhos,
Echos de  Guriatans,
Delays de Curiós,
Chorus Sabiás nas sábias algarobas
E o nylon do Di Giorgio,
Uma nativa Passiflora com a pureza do saber amar sem frescuras,
Uma nativa Passiflora com rosto de brilho das águas do açude,
Uma nativa Passiflora doce ...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Por que dizemos "Eu te amo porra"








Antes de qualquer coisa ou letra; " O amor não é um tolo, é um ser irritante, desordeiro e safado..."
O seu grassante efeito de me reduzir ao outro
Me deixa estúpido e impaciente comigo mesmo
De vezes e mais vezes me oposicionei, tentei ser óbvio, pragmático e sacana,
Mas... descobri que o tal desprezível, torpe e vil era de fato um cabra fuleiro: óbvio e sacana em damasia
Foi com sincera irresolução que caí em idéias e teorismos sobre o amor,

o Desgraçado talvez seja:

a pura e inexplicável complementação do sexo,
a necessidade do ciúmes
a carência dos afagos e discussões
a vontade de assistir novela com o outro do lado
a imprescidível sensação de sentir-se dono e propriedade
a míngua do calor na cama
a falta de tudo, o tédio...
a dependência nata do "Eu humano" (não-pleno)
a antítese do medo
um espelho nítido da nossa alma pervertida

ah... O absurdo talvez.

sem dúvida, o "Miserável" é o absurdo.